Como se apaixonar por um país em apenas uma semana?

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Soube que o William Truppel, seria, como eu, um dos milhares de corinthianos que invadiram o Japão. Pedi para ele contar como foi aqui no ajanelalaranja.com. Olha que legal!! Conta aí William!

Você que está na dúvida para onde ir em sua próxima viagem internacional, aqui vai uma sugestão. Se você deseja conhecer uma cidade linda, principalmente à noite quando fica mega iluminada, que é totalmente acessível e limpa, que mistura o passado e o presente num mesmo território de maneira harmoniosa e sem prejudicar o desenvolvimento local, que conta com um povo ordeiro, solícito, respeitoso, muitíssimo educado, alegre, honesto e que não pensa somente em seu próprio umbigo, vá para Tóquio, no Japão.

Fui ao Japão assistir ao bicampeonato mundial do Corinthians. Depois de conquistar pela primeira vez este ano a Copa Libertadores da América, título ganho de forma invicta, feito que nem o mais fanático dos corintianos poderia imaginar antes do início da competição, o Timão se tornaria novamente campeão do mundo. Lá no oriente estava “Um Bando de Loucos”, sendo eu um deles, que ultrapassava os 30 mil. Ouso dizer que durante minha estadia no Japão, do dia 9 a 17 de dezembro, a frase que mais ouvi pelas ruas foi “Vai Corinthians” ou “Ike, Ike Corinthians”, como diziam alguns nativos. A partida decisiva foi tensa, emocionante e inesquecível. Placar final: Corinthians 1 (Paolo Guerreiro) x Chelsea 0. Começava então, o início da festa, que certamente se arrasta por 2013.

Essa conquista do “Time do Povo” tornou minha viagem perfeita. Um sonho que depois de algum sacrifício pessoal, do meu irmão Richard Truppel, e do meu amigo Gustavo Nunes Ornelas, virou realidade. A vocês, meu muito obrigado. Nunca esquecerei o que fizeram por mim. Graças a eles é que posso contar essa história hoje.

Torcedor no japao

Mas não foi “somente” a vitória do Corinthians que me faz considerar a visita ao Japão a melhor viagem durante meus 27 anos de vida. Apesar do custo elevado do passeio e das mais de 24 horas dentro de um avião, na classe econômica, todo sacrifício valeu a pena; afinal, imaginem como é para um cadeirante viver, mesmo que temporariamente, numa cidade totalmente acessível.

Foi uma enorme sensação de prazer poder ir aos lugares sem dificuldade alguma de locomoção; conseguir tocar a cadeira de rodas pelas calçadas livremente, pois não há o mínimo de desnivelamento (sequer existem guias para acessá-las); ter a chance de apertar os botões dos elevadores e ascender as luzes do quarto; encontrar todos os banheiros adequados às nossas necessidades; a maioria dos restaurantes com mesas apropriadas para o perfeito encaixe da cadeira de rodas; e ainda ônibus e metrôs com rampas para que a pessoa com deficiência consiga entrar e sair facilmente do transporte público sempre que preciso.

Cadeira de rodas em Tóquio

A estação de metrô de Yoyogi, em Tóquio, cidade onde fiquei hospedado, é a única pelas quais passei que não há elevador. Porém não tive tempo de me lamentar ou fazer qualquer crítica. Imediatamente, um guarda que fazia a segurança do local, me levou até uma escada rolante. A partir daí, vejam o que aconteceu que fantástico.

escada rolante

Até nas construções antigas, como no templo budista o qual visitei, existe acessibilidade adequada para o deficiente circular sem dificuldade. Preservando as estruturas e as características do ambiente, foi feito um elevador para que o cadeirante consiga acessar a parte superior do templo.

Portanto, também cai por terra outra velha desculpa dos brasileiros de que é difícil se fazer mudanças em antigas edificações ou em patrimônios tombados; fala que sempre me convenceu até essa visita ao Japão. Mais uma vez, o Brasil mostra estar muito atrasado em relação aos outros países, que verdadeiramente se preocupam com o bem estar do indivíduo. Aqui, infelizmente, ainda impera o individualismo e a lei do mínimo esforço.

Entretanto, o mais bacana é saber que essas iniciativas não foram feitas de forma impositiva no Japão. Ou seja, receber bem as pessoas, independentemente de sua condição física, étnica, sexual ou religiosa faz parte da cultura nipônica. Ajudar e respeitar o próximo parecem ser obrigações dos japoneses. Pode estar certo de que para o povo japonês é uma tristeza não conseguir atender a um pedido de outra pessoa, seja ela quem for.

Tanto é assim que, estava tomando meu café da manhã no hotel onde me hospedei, quando pedi uma banana à garçonete, que voltou depois de alguns minutos me pedindo inúmeras desculpas e quase chorando, para me informar que a fruta havia acabado. Tamanha foi a sua frustração que ficou sem saber como agir. Eu tive que dizer que estava tudo bem, que não havia problema algum a falta da banana, para que ela se sentisse um pouco menos desconfortável. Outro exemplo é quando se está perdido na rua e um nativo decide te acompanhar por livre e espontânea vontade ao local onde você deseja ir, simplesmente por não conseguir te passar a informação correta devido à dificuldade de comunicação, já que a maioria dos japoneses não fala inglês.

Mesmo que não haja um dialogo perfeito entre você e um nativo, a maioria das pessoas com quem conversei está sempre disposta a ouvi-lo pacientemente e até se arrisca a conversar se você puxar algum assunto. Aliás, é interessante observar também a forma direta como se dirigiram a mim. Falavam comigo e não com meu acompanhante. Viam-me apenas como um cadeirante e nada mais que isso. Não ficavam me encarando ou me olhando de maneira “estranha”.

Muito diferente do que acontece no Brasil, onde a maioria das pessoas me rotula e é carregada de preconceitos. Aqui as aparências ainda são um fator determinante. Tanto é verdade que nunca namorei. Se você senta um pouco mais torto que os outros, sofre alguns espasmos chamados de movimentos involuntários ou fala com mais dificuldade, suas chances diminuem bastante. Você tem que lutar a cada dia para mostrar à sociedade que, apesar de deficiente, também tem valor.

É claro que existem exceções dos dois lados, sempre há. Haja vista a turma de corintianos, brasileiros, que viajou comigo no mesmo avião, mas que só fui conhecer posteriormente já do outro lado do mundo. O pessoal me tratou super bem desde o primeiro contato. Fiquei bem à vontade conversando com eles e consegui mostrar o William além da cadeira de rodas. Foi difícil conter a emoção no momento da despedida, porque, apesar dos poucos dias de convivência e da nossa promessa de mantermos contato, as lembranças e risadas serão inesquecíveis.

Aproveito para falar também sobre a nossa guia japonesa, Ayako Kobayashi Sam, a corintiana oriental mais entusiasmada que conheci. Sempre muito alegre, atenciosa e educada, Ayako Kobayashi Sam, ganhou meu carinho, respeito e admiração. De verdade, foi um privilégio conhecê-la. Quando voltar ao Japão, certamente regressarei, eu espero poder revê-la.

Minha impressão foi a de que, apesar de bastante reservados, a população japonesa é muito respeitosa e muito alegre. Principalmente, as mulheres carregam sempre consigo um belo sorriso no rosto, que pode ser observado depois de alguma troca de ideias. Além disso, são muito elegantes e bem maquiadas; possuem uma beleza peculiar, que me chamou bastante atenção.

Também não posso deixar de mencionar a honestidade e a confiança do povo japonês nos seres humanos; características que nossa guia, Ayako Kobayashi Sam, já havia mencionado em uma de suas explanações sobre o Japão, mas que pude presenciar na prática em dois momentos.

Primeiro, quando meu amigo Gustavo Ornelas estava comprando uma câmera fotográfica. Ele já havia decidido qual modelo levar, mas a vendedora resolveu intervir e lhe sugeriu outro melhor e mais barato. Essa atitude me surpreendeu positivamente. Outro acontecimento marcante ocorreu antes de entrarmos nos dois jogos do Corinthians pelo mundial. Um japonês, responsável pela organização e que vestia um agasalho da FIFA, sempre nos perguntava se carregávamos algum objeto cortante, bebida alcoólica ou arma de fogo. Respondíamos que não. O fiscal acreditava em nossa palavra e nos liberava para assistir à partida sem sequer nos revistar.

O fato negativo ficou por conta da CVC, uma agência de viagem brasileira, que mesmo sabendo antecipadamente que receberia um cadeirante para viajar consigo e da facilidade de se encontrar transportes adaptados em Tókio, contratou um veículo inacessível aos cadeirantes, ou seja, tive que subir e descer escadas durante os traslados para os jogos e para os passeios fechados junto à agência. Uma vergonha. Completo descaso, evidenciando que o Brasil é um país arcaico e, o pior, sem vontade para mudança. Lamentável.

Em resumo, tive saudades da minha família e amigos que estavam aqui no Brasil, mas se pudesse teria ficado no Japão. Eu amei a cidade e o seu povo. Pretendo começar a aprender japonês ainda no início do próximo ano e, bem mais adiante, comprar uma casa em solo japonês para viver lá no futuro. Por gentileza, não riam desse meu desejo, afinal eu sei que é difícil fazê-lo se tornar realidade, mas sonhar não custa nada.

As poucas palavras que aprendi em japonês

Hai = Sim

Iie = Não

Sumimasem = Com licença

Onegai shimatsu/Kudasai = Por favor

Arigato gozaimasu/Domo arigato = Muito obrigado

Doko = Onde

Ohayou = Bom dia

Konnishiwa = Boa tarde

Konbanwa = Boa noite

Ike Ike Corinthians = Vai Corinthians

Subarashi = Que beleza

Ichiban-kawaii = Você é bonita(o)/linda(o)

Sam = Senhor(a)



6 comments

  1. Mariana 5 janeiro, 2013 at 11:17 Responder

    Nossa que lindo, chorei lendo essa história !!!

    Como um bom atendimento faz com que o ser humano se sinta melhor r mais respeitado, William como você compartilho do amor pelo Corinthians, queria muito ter ido, mas não pude ir, espero ir para o Marrocos.

    Nunca daria risada do seu depoimento e da sua vontade de morar lá, acho que temos que procurar sempre o que nos traz o melhor.

    Eu sou dona de uma franquia de intercâmbio e adoraria que as pessoas vissem que tudo é possível, parabéns e que você faça muitas viagens !!!

    Abs

  2. Akiko Kawashima 8 janeiro, 2013 at 13:44 Responder

    William!!!
    Não desista nunca dos seus sonhos!(^^)
    Como se diz por aqui: Ganbatte kudasai! ( Continue se esforçando!) Continue lutando pelos seus sonhos e ideais!

  3. Flavio Catalão/GO 11 janeiro, 2013 at 16:53 Responder

    William. Sou nissei e moro no Brasil. Tive a oportunidade de conhecer o Japão ainda muito jovem com 15 anos de idade. Tb acompanhei em Toyota e Yokohama a grande conquista do nosso Timão. E confesso que agora mais velho e experiente, eu pude realmente conhecer o povo e a cultura japonesa. Só quem vivenciou o Japão compreenderá melhor o seu relato, e posso dizer que muitos brasileiros descendentes ou não que passaram por lá, carregam o mesmo sentimento que o seu. Amigo, confesso que nessas primeiras semanas de volta ao Brasil ainda sinto muita saudade de lá e certamente o Japão sempre estará em meu plano de viagem. Infelizmente o Japão não sediará o Mundial de Clubes nos próximos 2 anos. Parabéns pelo conquista e pela sinceridade em seu relato. Felicidade e Vai CORINTHIANS!!!

  4. Ivete 10 março, 2013 at 10:49 Responder

    Moro no Japão e fiquei também emocionada ao ler o seu relato. Aqui as coisas são bem assim mesmo, mesmo morando já há 10 anos ainda me admiro com a educação e respeito ao próximo. Triste é ver brasileiros que moram aqui quererem fazer o mesmo que faziam no Brasil… dá vergonha. E eu estou planejando voltar ao Brasil… Não sonhe, faça da sua vontade um plano real! Sucesso!

  5. Ivete 10 março, 2013 at 10:51 Responder

    Moro no Japão e fiquei também emocionada ao ler o seu relato. Aqui as coisas são bem assim mesmo, mesmo morando já há 10 anos ainda me admiro com a educação e respeito ao próximo. Triste é ver brasileiros que moram aqui quererem fazer o mesmo que faziam no Brasil… dá vergonha. E eu estou planejando voltar ao Brasil… Não sonhe, faça da sua vontade um plano real! Sucesso!

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